Editorial de Lançamento

Nos últimos anos o Brasil tem experimentado algumas substanciais mudanças em torno das perspectivas no âmbito da pesquisa acadêmica em turismo e áreas fins. Tanto quantitativamente, quanto em termos qualitativos, é possível inferir que novos horizontes têm se aberto no domínio dos chamados “estudos turísticos”. Numa visão otimista, os horizontes são bastante promissores. Não obstante, mesmo no auge do pessimismo, significativas melhorias estão sendo alcançadas.

Quantitativamente os estudos turísticos têm se ampliado em razão de uma necessária abrangência da análise dos diversos aspectos que permeiam o fazer turístico. Essa diversidade abarca áreas do conhecimento que encontram nas Ciências Sociais sua maior expressão, fato que tem tirado o foco dos estudos centrados exclusivamente no aspecto econômico, por muito tempo, observado como ponto central de análise do turismo, sustentando, inclusive, discursos apoteóticos que deram ao turismo uma posição de protagonista do desenvolvimento das localidades. Nessa perspectiva, os avanços qualitativos também se apresentam na medida em que se tem uma maior verticalização do conhecimento relacionado à atividade turística, mostrando indícios de uma produção mais consistente.

Essas novas expectativas acadêmicas acompanham o crescimento constante da atividade turística, com especial destaque para o período posterior à Segunda Guerra Mundial. Dessa forma, o turismo vem se refazendo em práticas expressivas do ponto de vista de suas repercussões e que apresentam como características inerentes a rapidez e a diversidade de situações que exigem domínios múltiplos de conhecimento conformando um tratamento mais abrangente e coerente acerca da atividade. Nesse contexto, denota-se a premente necessidade de novos estudos que abarquem a amplitude de realidades que têm no turismo seu referencial.

No que pese o caráter recente dessas produções científicas que passaram a apresentar maior expressão a partir da década de 1990, as mesmas têm possibilitado um maior adensamento de estudos diversificados em termos teórico-metodológicos, exigindo, por conseguinte, espaços apropriados como meios de divulgação/publicação.

Esse processo de produção do conhecimento na área do turismo tem evidenciado um caráter de continuidade e revisão do conhecimento, característica necessária quando se fala em análise de práticas e estudos em turismo, tendo em vista suas características de diversidade, dinamicidade e abrangência.

Nesse contexto, pesquisadores de distintas áreas do conhecimento têm se mostrado abertos às possibilidades de estudos voltados a atividade turística e alguns de seus temas fundamentais, tais como o planejamento do espaço turístico; os usos e desusos do patrimônio cultural; o ecoturismo aliado a educação ambiental; a geração de emprego e renda em áreas periféricas, etc. Logo, geógrafos, sociólogos, economistas, antropólogos, historiadores e administradores deram e estão dando uma parcela de contribuição capital para esses novos nortes acadêmicos. Evidentemente, os chamados turismólogos não estão sós nessa empreitada intelectual.

Prontamente, muitos pesquisadores têm dedicado esforços fundamentais para a compreensão da natureza da produção do espaço turístico, do planejamento estratégico, de impactos ambientais decorrentes dos usos recreativos e de inversões de capital, estudos sobre a revitalização de áreas degradadas, sobre inclusão social por meio do lazer e do turismo, sobre a análise de políticas públicas, gestão participativa, turismo rural como dinamização e diversificação da economia do campo, relações de trabalho em hotéis, bares e restaurantes, dentre muitas outras possibilidades e efetividades.

Essas temáticas conjeturam concretamente o presente momento da atividade perante as universidades brasileiras, isto é, um breve progresso em que a mesma vem ganhando visibilidade não apenas como campo instrumental-administrativo, ligado à gestão de equipamentos de alimentação, hospedagem e agenciamento, mas, principalmente, como um campo de saber que necessita de maiores investigações críticas acerca de seus supostos benefícios socioeconômicos.

O debate entre os saberes sociológico, geográfico, antropológico, da ciência econômica, da teoria política, etc., fortalece as investigações sobre a temática, na medida em que traz para o campo disciplinar do turismo distintas perspectivas teóricas.

No entanto, mesmo com este avanço já sentido, muitas das análises que vêm sendo feitas sobre a atividade carecem de uma apreciação objetiva sobre sua substância empírica. Muitas apologias vêm sendo feitas. Distintas ideologias, sobretudo econômicas e políticas, são reproduzidas face ao debate sobre o turismo. É mister quebrá-las. Tornar visível o obscurecido.

Nesse ínterim, alguns periódicos vêm se destacando no campo das relações institucionais da pesquisa, enquanto outros se mantêm timidamente no competitivo cenário da legitimidade acadêmica no país. Não obstante, uma coisa vem se tornando realidade: o número de interessados nos estudos em turismo tem aumentado. Em outras palavras, há significativamente quem publique algo relevante nesse campo disciplinar. Resta, todavia, uma ampliação qualitativamente diferenciada dos meios disponíveis, uma melhor seletividade do que vai a público e uma melhor comunicação entre pesquisadores e os periódicos.

Nesse sentido, por conseguinte, a revista “Turismo: Estudos e Práticas” está surgindo com um intento crítico para esse cenário de ampliação dos estudos em turismo. Longe de ser um receptáculo de opiniões, o periódico que agora vem a público possui uma missão claramente delimitada: ser um espaço de encontro de estudos críticos em torno do turismo.

Multidisciplinar por excelência – embora sem recorrer aos excessos que o termo vem recebendo nos últimos anos – o periódico objetiva congregar olhares distintos sobre a atividade turística e suas relações sociais, econômicas, ambientais, culturais e políticas. Não se trata de modismo acadêmico, mas sim, da emergência – tanto no sentido de emergir, quanto no sentido de urgente – de se pensar essa atividade tão estimada pelo país e ainda embrionariamente analisada sob o viés da crítica.

Primeiramente, o turismo está intimamente vinculado com as relações sociais, por exemplo, relações de classe, divisões sexuais, estruturação racial e desigualdades territoriais. Portanto, requer uma maior atenção mais acentuada por parte das ciências humanas em geral. Segundo, o turismo envolve cultura e, por conseguinte, poder, contribuindo, pois, para produzir assimetrias nas capacidades individuais de realização de necessidades. Não há como fechar os olhos para uma atividade que, paralelo as suas benesses, tem trazido muitos problemas de ordem ambiental, econômica e social para muitos municípios brasileiros. Em terceiro lugar, o turismo é um local de diferenças e de lutas por significação cultural e produção de valor econômico. Logo, muitos conflitos insurgem em meio aos avanços e retrocessos da atividade. Deste modo, o turismo requer maior atenção crítica acerca de sua estruturação, envolvendo todos aqueles que o analisam e o têm fortemente como objeto de estudo.

Como o próprio título da Revista indica, aqui há local tanto para estudos de cunho teórico-bibliográfico (ainda muito carente no Brasil), quanto para comunicações dotadas de maior ligação com o planejamento e a gestão da atividade. O subtítulo “Estudos” e “Práticas” não expressa nenhuma separação entre teoria e intervenção. Pelo contrário, conforme oportunamente adverte Theodor W. Adorno, “ni la praxis transcurre independientemente da la teoría, ni esta es independiente de aquella” (ADORNO, 1973, p. 179) . Logo, teoria e prática não podem ser dissociadas.

Para finalizar estas primeiras palavras de lançamento, a Revista se dirige mais a uma vontade cognitiva de fazer a crítica do pensamento. De dar um passo a frente e desobscurecer as apologias, as paixões políticas e os fortuitos discursos empresariais tão incrustados nas análises tradicionais aplicadas ao turismo. Toda contribuição crítica nesse sentido será muito bem vinda.


Jean Henrique Costa
Michele de Sousa
Rosa Maria Rodrigues Lopes


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